Quando bate o banzo ou o peso das escolhas

Hoje vamos falar de saudade. Essa palavra única da língua portuguesa, bonita, que revela um sentimento bem característico dos brasileiros, mas… que me parece banalizada de tanto que usamos. O que eu tenho a dizer sobre saudade é que antes de vir morar em outro continente, eu nunca a tinha experimentado com tanta intensidade.
A verdade é que a minha vinda para a Europa foi uma mudança bem radical de vida para mim. Eu nunca tinha morado por mais de alguns meses sem meus pais, eu não sabia falar francês, eu nunca tinha enfrentado temperaturas mais frias do que 12°. E ainda por cima eu estava começando um doutorado!
Logo que cheguei, a chuva de novidades que caiu na minha cabeça foi tão intensa que não tinha muito espaço para o sofrimento. Eu tinha era coisas para contar todos os dias, todas as horas, e queria dividir isso com minha família e amigos no Brasil. Tive sorte, muita sorte, de ter vindo morar num lugar pequeno, com pessoas legais, que me integraram bem rapidamente ao grupo, e, é claro que começar um namoro nas primeiras semanas foi um super empurrãozinho por me sentir acolhida e feliz.
Porém, passado o “impacto” inicial (e bem começado o outono também), veio uma fase dura. Mais ou menos aos quatro meses de vida francesa, eu comecei a me sentir muito, muito sozinha, eu tinha vontade de voltar ao Brasil, eu não aguentava mais depender dos outros para resolver minhas coisas em francês, e a chegada do inverno também joga muito sobre a moral.
No início do inverno tudo bem, até o frio era novidade. Mas depois de dois, três meses de frio, dias curtos, pouco Sol… o desânimo vem com tudo.
Claro que superei essa fase. Fui sendo guerreira e aguentando firme. Ao mesmo tempo, ia me adaptando à minha vida aqui, melhorando meu francês, criando projetos de longo prazo (que incluem continuar na Europa após a tese), e, por que não dizer, criando mesmo raízes por aqui.
E hoje? Depois de um ano e meio, como eu gerencio essa minha vida distante da família e amigos? Eu vou vivendo como posso. Em altos e baixos, como acredito que é a vida de todo mundo, independente de ter saído do seu país de origem ou não.
Me comunico muito com minha família via Whatsapp, Skype, telefone. Com meus amigos, também. Mas a verdade é que a gente vai ficando distante, nossa vida reuniu tantas novidades nesse período que fica difícil manter todo mundo atualizado e se manter atualizado sobre todo mundo. Às vezes é muito duro ver fotos de festas de aniversário, encontros, momentos que perco estando longe. Mas ao mesmo tempo, vivo uma experiência tão legal justamente por estar aqui! Então não existe alternativa a não ser lidar com isso.
Sobre a saudade do Brasil, da cultura, eu também vou lidando como posso. Amo muito meu país, mas ter vindo para a França também esteve relacionado à minha admiração pelo estilo de vida e cultura europeus.
Cada vez que tem uma festa brasileira por aqui eu faço questão de ir. E me emociono, tiro fotos, fico orgulhosa do meu povo. Mas ao contrário de muitos brasileiros que vão morar fora, eu praticamente não conheço brasileiros aqui. Os vejo ocasionalmente, quando tem essas festas tradicionais realizadas por associações de brasileiros, ou quando vou intencionalmente numa loja de produtos brasileiros. Mas não fiz amigos compatriotas aqui.
Fui ao Brasil apenas uma vez nesse 1 ano e meio. Foi uma experiência e tanto para mim sentir a minha própria cultura, a casa dos meus pais, rever os meus, depois de tanto tempo. Penso, um dia, em talvez voltar a morar no Brasil, mas por enquanto ainda é uma ideia muito nebulosa. Tenho algumas coisas previstas por aqui ainda antes de tomar qualquer decisão.
Hoje eu só queria compartilhar um pouquinho com você esse relato mais íntimo sobre como lido com a saudade e a falta da família e amigos aqui. A intenção é mostrar para outras pessoas que querem morar fora que nunca existirá alegria 100% do tempo, não importa o que você escolha fazer. Os momentos difíceis existem quando a gente vem morar no exterior, mas nós somos fortes, e capazes de superar qualquer coisa. Acredite nisso.
E você? Tem uma historia como a minha e gostaria de compartilhar? Participe, comente.
Até a próxima, pessoal.
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3 comentários Adicione o seu

  1. Marcela MI disse:

    Força na saudade e aproveite muuito esta fase única! beijão flor!

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  2. Manoela disse:

    Eu acredito que, no inverno, com a falta de sol e os dias mais curtos, todos esses sentimentos que nos deixam um pouquinho depressivos, se acentuam mesmo. Realmente, não existe um mundo perfeito, literalmente, os desafios de morar fora do nosso país são enormes. Mas acredito que isso tudo contribui para o nosso crescimento pessoal e amadurecimento. Por aqui na Escócia, apesar de conhecer brasileiros, e estarmos eu e meu marido, sinto muita falta do calor humano, dos abraços, de uma conversa animada. Encontrar um produto brasileiro no mercado é motivo de festa. Mas você está tirando de letra! Com certeza já é uma Alice muito diferente de quando veio pra cá. Continue firme e forte, sua família sle seu país sempre estarão lá de braços abertos pra te receber.
    P.S.: com relação a palavra saudade, acho ela linda. E só sentimos saudade daquilo que faz nosso coração bater, realmente, mais forte.
    =

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  3. Flávia Brito disse:

    Também sentimos saudades suas amiga, mas como diz minha avó ‘é uma saudade aliviada’ por saber o quanto você está crescendo e conquistando pelo mundo. Amamos você!!

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